quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Meu amigo. Minha torta.



Hoje resolvi postar um texto que fiz como tarefa de redação. O objetivo era escrever sobre o 'morador de rua'. Fiz dois textos. Um dissertativo, extremamente chato, que não seria capaz de mostrar para ninguém, e outro, narrativo, que, na minha opinião, ficou nauseabundo. As imagens são referentes à Primeira Guerra Mundial, para ilustrar o texto, que se passa nessa época, na cidade de Londres, num bairro de classe média.









MEU AMIGO. MINHA TORTA.



Meu nome é Ivan e eu sou jornalista do jornal ‘O Londrino’ há dez anos. Todd é o ‘mascote’ de minha rua há onze.
Enquanto eu terminava a universidade, ele já morava na praça do quarteirão seguinte e já havia assumido a rotina de todos os dias cabriolar em torno de seu amarrotado chapéu para conseguir alguns centavos para poder ingerir seu álcool diário. Eu nunca soube se eram as cabriolas que o faziam beber, ou se era a bebida que o fazia cabriolar. Mas, mesmo assim, todos os dias – isso quando eu tinha algum dinheiro – parava uns cinco minutos para vê-lo em suas palhaçadas, cedia-lhe alguns centavos e me sentava na loja de tortas em frente à praça para tomar meu café da manhã.

Mas, o que eu não te disse, leitor, é que este é período da Primeira Guerra Mundial. A cidade de Londres está se esvaziando feito as tripas de uma criança indiana com vermes. Entretanto, por que eu iria correr para o interior do país em busca da segurança? É aqui, nesta maldita cidade alvejada pela Guerra que estão as grandes noticias! É para cá que todo o mundo volta seus olhos sedentos por sangue! É este o lugar de um jornalista! E também é o lugar de onde Todd não arreda pé.
Todd é como um fantasma na paisagem enevoada de Londres. Seus cabelos brancos e desgrenhados, seus dentes corroídos e amarronzados e suas roupas feitas em trapos compõe esta figura extraordinária. Nunca se vê Todd triste. Todd espantado. Todd com medo! Jamais! A qualquer hora que você mirar Todd com atenção, o verá sorrindo com sua desgraçada boca – a qual aparenta estar mais morta que viva.
Um dia, há muito tempo atrás, antes da guerra, quando eu estava no auge de uma melancolia amorosa – pois, digo-lhe, a paixão vem sempre antes da desgraça, mas uma nunca deixa a outra de lado – sentei-me no banco da praça de Todd. E ele logo veio, correndo aos saltos para me encontrar. Seu olho esquerdo sangrava.

- O que houve com seu olho? – perguntei, mas não me importando muito, afinal estava com uma imensa dor no meu peito que não dava espaço para a compaixão.

- Ah, uma besteirinha. Dois garotos vieram até aqui a noite e devem ter me achado com cara de Alemão! Pois, depois uma boa surra, enfiaram-me a bengala no olho!

É, este era o Todd. Podiam enfiar-lhe uma bengala no olho e cega-lo que ele continuava a sorrir, com seus dentes podres. Olhei-o, e devo ter denunciado, pela minha expressão, que não me conformava com aquilo, por que, com o único olho fixo em mim, gargalhou, com a boca escancarada. Seu hálito veio até mim e tocou, imediatamente meu estomago, enfurecendo minhas tripas. O ar que saía da sua boca cheirava ao chorume da cova de um maldito turco! Recompus-me, criei coragem e agarrei a manga de suas vestes.

- Você deve ir ao hospital. Vai acabar por morrer com o olho desse jeito!

Ele parou de rir, e no seu único olho eu vi um brilho de sagacidade que me espantou. Toda a lucidez do universo estava para sair daquela boca extremamente podre.

- Ao hospital? Para que? Ora, não seja ingênuo, garoto! Tens muito que aprender! Se há um lugar podre, com vermes infestando as ruas, este lugar é Londres! Se eu for ao hospital, o doutor se verá na obrigação de acabar com este verme que vos fala, e aí sim eu terei morrido graças a este maldito olho! Queres me ajudar? Pois, ao invés da consulta, compre uma garrafa de rum para que eu possa molhar este olho desgraçado e esta garganta seca!

Fiquei tremendamente horrorizado com seu discurso. Para mim, Todd não seria capaz de formar umas poucas frases lógicas, sem que começasse a cabriolar loucamente, entretanto, todo aquele falatório parecia pertencer a alguém completamente são!
Pois bem, fiz-lhe a vontade! Fui até minha casa, retirei duas garrafas de rum do armário – um jornalista que se preze sempre guarda uma quantidade imensa de álcool para manter-lhe a sanidade e a inspiração – e voltei para a praça.
Bebemos a noite inteira, sem falar palavra alguma. E, quando estava para amanhecer na enevoada Londres, mirei o pobre coitado e perguntei, com a voz que só os que beberam rum em demasia possuem:

- Se acha que Londres é um buraco cheio de vermes, por que não saiu até hoje daqui?

Ele me olhou bem, sorrindo feito um insano e respondeu-me como um pai responde a um filho que lhe havia feito uma pergunta cuja resposta era extremamente óbvia.

- Ora, garoto, e para onde mais eu iria?! Vermes devem permanecer com vermes! Fico por querer saber até quando um verme insignificante como eu pode sobreviver nessa cidade de grandes vermes! Sabe, os pequenos vermes alimentam os grandes vermes, garoto... Mas até agora eu estou aqui, não estou?! Não poderia morrer sem saber quanto tempo eu duraria!

Fiquei sem acreditar no que havia ouvido. Despedi-me de Todd e fui em direção à minha casa. Quando estava para perdê-lo de vista, voltei-me para trás e o vi deitado, sob seus trapos sujos, no bando em que estávamos sentados, pronto para mais uma noite naquela fria cidade. Era uma figura fascinante! Fiquei pensando no que ele havia dito a noite inteira e, no dia seguinte, com a graça de Deus, estava com uma terrível ressaca!
Entretanto o tempo passou. No mês seguinte à minha conversa com Todd fui promovido no ‘O Londrino’, coisa que aconteceu mais duas vezes desde que a guerra estourou. Eu estava crescendo às custas da guerra! Não havia melhor colunista sensacionalista que eu! E, justamente por isso, só me sentia realmente bem comigo mesmo naqueles cinco minutos em que via Todd cabriolar em volta de seu chapéu. O olho, depois de uma fétida infecção, cicatrizou-se e manteve-se cego pelo resto de sua vida.
E, enfim, chegamos ao presente. Todd desapareceu há quatro dias. Nunca havia saído daquela praça, a não ser, é claro, para trocar suas merrecas por rum. Entretanto havia desaparecido. O que não era estranho. Já faz um tempo que os moradores de rua da região andam desaparecendo.
Entristeci-me profundamente com o sumiço de Todd – mais até do que eu mesmo esperava. E agora parece que esta rua já não tem mais atrativo nenhum. Nem mesmo a maravilhosa loja de tortas em frente a praça me parece grande coisa sem o espetáculo matinal de Todd.
Mas o que estava por vir, leitor, espantará você, da mesma forma que espantou a mim. E seu espanto, isso é certo, fará com que esta coluna seja ainda mais vendida por estas ruas podres, o que me tornará um verme ainda maior.
Fui à loja de tortas ontem, depois de dar mais uma olhada melancólica no banco da praça onde eu e Todd outrora bebemos juntos para afastar a dor de seu olho e a minha dor existencial.
Sentei-me no balcão, e a imensamente gorda Sra. Rice, veio até mim com seu sorriso polido e extremamente amável e branco. Ela tinha cabelos loiros que lhe caiam aos ombros e os olhos azuis. Usava um avental manchado de marrom, graças à massa das tortas, que ela abria com uma força animalesca e com uma destreza espantosa.
Eu gostava da Sra. Rice. Durante todos estes anos que eu tomei café da manhã ali, ela sempre me tratou como um filho, tendo a irritante mania de apertar minhas bochechas, até que elas criassem uma barba realmente espessa.
Ela se aproximou, com seu passo gingado de costume e beijou-me no rosto.

- Você está pálido e magro demais! Anda trabalhando e bebendo muito não? Pois bem, hoje tem torta de carne! Uma raridade nesses tempos difíceis, não acha? O negócio está indo de vento em popa apesar dessa maldita guerra. Vai querer chá e uma torta de carne certo? Pode sentar-se ali, querido, vou lá dentro buscar.

Sentei-me na mesa que ficava em frente à vitrine, de onde podia vislumbrar a praça. Não tardou muito até que a adorável Sra. Rice entregasse um prato com uma grande e suculenta torta de carne e uma xícara do seu delicioso chá fumegante.
Um gole do chá. Um bocado de torta. O gosto era estranho, mas não ruim. Exótico, eu diria. Com uma estranha textura aveludada. Meio amarga, mas talvez fosse o tempero.
Mordi algo duro. Recolhi o objeto com o garfo e, espantado, vi que se tratava de um dente. Amarronzado e gasto. Grande e quadrado. Dente humano. Reconheci-o imediatamente, afinal, não o via todos os dias pela manhã? Não era daquele sorriso que sentia tanta falta?
Ali estava a explicação para o sumiço do bom e velho Todd. Pobre amigo.
Entretanto, pensei, ele morrera com um objetivo cumprido. Havia sobrevivido tanto tempo naquela cidade de grandes vermes imensos quanto pode! E, como se isso não bastasse, provou sua teoria de que os vermes menores alimentam os maiores.
E ali estava eu, um grande verme, que se fez a partir da guerra, sendo servido com a carne do insignificante verme e grande amigo Todd.
Sorri, ao pensar no título desta coluna, ali, segurando no garfo outro pedaço da suculenta e abominável torta. Todd, afinal, além de alimentar-me, me faria crescer ainda mais como o verme que nasci para ser. Tornar-me-ia ainda mais famoso. Por que agora, denunciaria a famosa casa de tortas da Sra. Rice por matar o velho Todd e com ele fazer uma torta! E ali estava a prova, o pequeno e alegre dente do meu amigo.
Meu amigo. Minha torta.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Rugido e Miado

Rugiu e lá vou eu.

Eu poderia começar escrevendo “Era no tempo do rei...” mas isso seria plágio de um romance extremamente chato, o que tornaria minha escrita uma critica ao pobre desgraçado autor do livro, ou então culminaria num texto tão desagradável quando o que ele escreveu. Portanto, não começarei falando este verdadeiro escarro, como diria Augusto dos Anjos, da humanidade.

Ao invés disso, vou iniciar como o próprio Augusto dos Anjos iniciou uma das estrofes de “Versos Íntimos”.

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!” O que é estiloso, mas, cá entre nós, como não fumo, não faz sentido algum. Portanto, a partir daqui, ligamos o botão do “foda-se” e vivemos felizes para sempre. Apesar de este não ser o fim, baby.

Despertou na sexta-feira meu senso crítico quando li, na folha uol (afinal, quem vai prestar vestibular deve ser um zumbi tão viciado em atualidade quanto uma freira é viciada em infernizar a vida alheia; salvo raras exceções, é claro, por parte dos vestibulandos, e não das freiras) uma frase de um politicozinho norte-americanozinho chamado McCain. E sim, usei realmente o diminutivo duas vezes para rebaixá-lo duas vezes! E maldito seja mais duas vezes!


Ele dizia – com o perdão de não possuir a frase 100% correta, uma vez que não a decorei – que esperava que Fidel Castro logo fosse encontrar-se com Karl Marx!
Ok, isso para você pode não significar nada, e você pode estar dizendo “bah, o que este guri maldito ta falando?”. Entretanto, apesar da SUA visão não compreender a minha visão, se você disse isso mesmo, pense no que é o capitalismo.

Não, não vou começar com um discursozinho socialistazinho politicamente correto. Até por que amo o capitalismo. (O que não me impede de odiar os capitalistas! Principalmente os do norte da américa com aspecto gorduroso.)
Mas, se você pensou no termo ‘capitalismo’, deve ter pensado em “livre concorrência”. Entretanto, como pode este bendito McCain se dizer um capitalista, quando quer se livrar da livre concorrência, ‘matando’ o último concorrente - realmente capaz – da ideologia capitalista? Simples. Não quer. E é por isso que eu o presenteio com o prêmio “Rola-Bosta de Antena Verde” de 2008, já no mês de Fevereiro. Um recorde! Aplaudam a superioridade Estados-Unidense!

Mudando de insetos gordos superdesenvolvidos para problemas bem menores em estatura e, ouso dizer, cérebro, vou fazer um pequeno comentário à parte de todos os assuntos aqui abordados: o pequeno (e digo pequeno, pois isso ele é) obstáculo que se impõe à um dos meus objetivos.

Eu poderia seguir as palavras de Winston Churchill: “Quando se vai matar um homem (no caso, se livrar de um,afinal não sou tããão trágico assim) não custa nada ser gentil.”
Ou, quem sabe, as palavras de Napoleão Bonaparte: “Acharei um caminho... ou abrirei um para mim.”.

Entretanto, como não sou nem tão velho quando Churchill e nem tão baixinho quanto Napoleão (não me perguntem o que isso tem a ver, estou num momento surrealista de combate a razão), digo eu: Abrirei uma cova no chão e colocar-te-ei dentro dela, para poder pisar na sua cabeça quando passar. RECADO DADO.


Ah sim, abrindo um parêntese aqui, ontem fui assistir o filme Sweeney Todd e o achei realmente muito bom. Recomendo-o àqueles que tenham um bom senso de humor sádico e crítico, ou àqueles que são fãs do fodíssimo Johnny Deep, que, aliás, trabalhou monstruosamente bem! Eu nem sabia que ele cantava, quanto mais daquele jeito. Entretanto, não recomendo às pessoas cardíacas ou que não gostem de sangue - a não ser, é claro, que sejam pessoas cardíacas das quais eu não goste! Essas podem ir à vontade!

E, como comecei com as palavras de um poeta pré-modernista, termino com as palavras de um modernista! Dá-lhe Manuel Bandeira.

“...
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

E agora o rugido virou miado.
PS: Referente às fotos, a primeira sou eu e a Thais, e a segunda a patota toda. Entendeu,não entendeu, problema teu.